Depoimentos

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Relato de uma voluntária sem cão.

Por Juliana Campos, voluntária e monitora no projeto no lar Padre Vicente Melillo

Acredito que a maioria das pessoas entre no Inataa por causa do amor que tem pelos animais e pelo desejo de trabalhar com eles. Não vou negar que parte deste mesmo sentimento me motivou a querer conhecer esse lindo projeto. Tinha acabado de adotar uma cachorrinha e já vinha a algum tempo procurando um trabalho voluntário que até então nada me chamava realmente a atenção. Avaliando cuidadosamente o que mais me atraia, sentia sim uma imensa facilidade em lidar com idosos, interagir com eles era sempre um prazer. Quando soube que existia um projeto que unia a ação entre pessoas e animais, imediatamente a ONG me chamou a atenção. Quis conhecer imediatamente.

Faço aqui um parêntese deste depoimento. Ser voluntário não é uma ação esporádica com data e hora marcadas. A essência está dentro de nós permanentemente, em estado latente. Somos voluntários SEMPRE.

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"Ser um voluntário sem cão é ser um voluntário de enorme comprometimento para si mesmo, porque a vontade de servir não existirá subterfúgios"

Pois bem. Como gostava de ajudar e tinha acabado de adotar minha Gigi, quis saber um pouco mais sobre o Inataa e seus trabalhos de AAA (Assistência Assistida por Animais). Como de praxe o primeiro contato com o Instituto é SEMPRE sem o animal. E lá fui eu numa primeira visita ao Asilo. Logo percebi que a minha Gigi jamais teria perfil para ser uma CÃO-TERAPEUTA. Precisava ser realista (já era desde que a adotei). Gigi tinha e tem problemas sérios de agressividade e não poderia estar com idosos, seria um risco para eles. Isso foi uma avaliação minha, observando os cães terapeutas e seus condutores, exercendo seus trabalhos de forma tão magnifica naquele lindo dia ensolarado de trabalho voluntário.

Para se tornar um cão terapeuta é necessário se enquadrar às exigências determinadas pelo Instituto. Todos são avaliados, pois eles não podem jamais apresentar qualquer tipo de risco aos assistidos. Mas em contrapartida, me senti tão bem lá, entre toda a equipe, entre os idosos, a energia e a própria atividade. Afinal, estávamos visitando o Asilo sem animal algum e estávamos interagindo com os idosos de forma tão harmônica e quando um cão terapeuta se aproximava com seu condutor para revezamento da assistência, tudo pareceu tão natural. Pensei, é possível ser um voluntário sem cachorro? Logo questionei à coordenadora e quando a resposta foi positiva decidi que seria o Inataa que a partir de então dedicaria mais um tempo do meu voluntariado para trabalhar,

Com o andamento das atividades, já sendo uma voluntária permanente tive a certeza do quanto importante precisávamos ter mais companheiros nesta função. Em nenhum momento me senti inferior aos voluntários que trabalhavam com seus cães terapeutas. Nenhum idoso fez qualquer distinção entre minhas visitas e aqueles que vinham acompanhadas dos peludos. A integração sempre foi perfeita. Deixava minha Gigi em casa, vestia com orgulho minha camiseta do Inataa e seguia para as atividades. Nos minutos de integração que antecediam o inicio das visitas, aproveitava para beijar e acariciar todos os cães terapeutas que iriam em breve trabalhar por um hora.

Atualmente sou monitora deste mesmo asilo e a certeza da necessidade de voluntários sem cães é mais forte. Como monitora pude observar que um voluntário sem animal apresenta qualidades diferentes e função distinta de extrema importância para as visitas. Devemos lembrar que não são todos os idosos que apreciam e se sentem confortáveis com a presença de animais seja de que qualquer tamanho. Para estes casos, um voluntário sem cão é o ideal. Pois assim, estes idosos não se sentirão distanciados ou até mesmo, diferenciados. Poderão receber atenção e carinho. Outra situação interessante é a versatilidade de um voluntário sem cão, que poderá estar mais livre e à disposição de qualquer outro membro da equipe auxiliando em outras funções que exijam rapidez em algumas ações imediatas. Imprevistos acontecem, um idoso pode se sentir desconfortável ou passar mal e a rapidez de procurar um responsável pode ser de grande valia por intermédio de um voluntário livre para se deslocar entre os corredores.

Entretanto, um voluntário sem cão não terá os mesmos recursos de distração e aproximação que dispõe um voluntário com cão. É indiscutível o magnetismo que o animal exerce com os assistidos. Eles abrem as portas da emoção e do silêncio. Eles fazem sorrir os idosos tristes, acalentam os idosos solitários e divertem os idosos amargurados. Nós, voluntários sem cão não teremos esses recursos. Aí é que deveremos descobrir aquilo que temos de mais mágico em nós e que nos motivou a sermos voluntários. O dom de doar amor, atenção e carinho. Usaremos os recursos que temos em nós: nossas mãos, nossos olhares, nossa palavra e nossa vontade. Ser um voluntário sem cão é ser um voluntário de enorme comprometimento para si mesmo, porque a vontade de servir não existirá subterfúgios. Será você mesmo com o assistido. Mas posso garantir que a felicidade é proporcionalmente gratificante. Desde que me tornei voluntária – sem cão – não senti necessidade alguma em ser uma voluntária com cão – porque o objetivo ali era sempre o assistido e em todas as vezes esse objetivo foi alcançado maravilhosamente. Ver um idoso sorrir era a prova disso. Chegando em casa receberia os afagos da minha Gigi porque ela sabia que mais um dia eu tinha feito algo bom.