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Há 7 anos minha cachorra é voluntária e percebi que nunca contei a sua história. Tirando alguns voluntários mais próximos, poucos sabem do início da vida de Milla.
Em meados de 2001 recebi um telefonema de uma mulher que tinha tido referências do meu trabalho de socialização, comportamento canino e adestramento. Marcamos uma consulta para conversarmos sobre sua filhote de golden. Chegando lá, apareceu a mulher com uma goldenzinha de mais ou menos 8 meses. No início da conversa a mulher me contou que amava muito essa cachorrinha, contou que já havia contratado um adestrador e percebendo o comportamento estranho da cachorra, resolveu segui-lo. Assim, descobriu que o adestrador amarrava vários cães nos postes e ia adestrando um por um fazendo com que os cães ficassem sentados em média 2 horas presos sem água e sem sombra para descansarem.
Perguntei quantas pessoas moravam na casa, e ela me disse que eram ela, o marido e sua filha de 8 anos. Fizemos o acerto habitual e comecei a socialização da cachorra. Depois de um mês que estava com a Milla (até hoje penso que ela levou esse tempo para se abrir comigo pois provavelmente me vigiava as vezes) . Fui chamada para uma conversa.
A dona da Milla contou que estava com câncer e que o tratamento não estava adiantando. Ela pediu que o meu trabalho fosse não só com a Milla, mas também com sua filha, para que fizesse uma aproximação maior entre as duas e assim a Milla seria um suporte emocional quando ela morresse. Lembro que nessa época a Milla ficava o tempo todo sentada ao lado da dona enquanto ela assistia TV, até que um médico achou que era “maléfico” para o tratamento ter um animal por perto e desde então Milla passou a viver na área de serviço.
O tempo foi passando e eu, Milla e a criança passeávamos e brincávamos enquanto ela era treinada para trabalhar no asilo Vivência Feliz.
No dia do enterro, eu a Milla e a filha fomos brincar no parque do Ibirapuera e depois fomos à Dogwalker brincar com outros cães.
Encerrada essa etapa, começou uma outra. O dono da Milla. Ele não gostava muito de cães e, para piorar, um dia a Milla estava na sala do apartamento e o portão para a área de serviço estava fechado impossibilitando-a de ir até o jornal para fazer xixi. Não agüentando mais, ela fez no tapete e foi fortemente repreendida. Como a Milla sempre foi uma cachorra muito dócil e obediente, ela achou que não era para fazer suas necessidades dentro do apartamento e NUNCA mais fez.
Nessa época ela já trabalhava no asilo e, como eu tinha muita dó dela, pois por incrível que pareça, nos finais de semana ela fazia um xixi no sábado de manhã e outro no domingo. Aliás, teve vezes que ela fazia na sexta quando eu a entregava e só ia fazer na segunda quando eu a pegava.
Fiquei uns 9 meses pegando a Milla às 5h30 da manhã, horário que o dono acordava e entregando às 17h horário que a empregada ia embora.
Até que um dia depois de muita insistência resolveram finalmente me dar a cachorra.
Acho que foi um dos dias mais felizes da minha vida. A Milla depois de 2 anos e meio de convivência seria totalmente minha. Ela iria poder fazer xixi a hora que bem entendesse. Ela poderia dormir na minha cama se quisesse...
Quem conhece a Milla sabe que ela é muito especial. Ela é a cachorra que sabe fazer conta, ela é a cachorra que deixa autistas baterem nela, ela é a cachorra que, todas as vezes, para entrar dentro de casa, senta e espera eu dizer que pode entrar. Mas ela não precisava ser tudo isso, ela só precisava ser A MINHA CACHORRA.
Kátia Regina Aiello
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