Por Laís Maria Milani
O INATAA atende um público variado e, entre este, estão os autistas, que são muito beneficiados pelo contato com os cães. O autismo vem sendo estudado há muito tempo, sendo que sua primeira descrição foi feita por Kanner na década de 40, porém, ainda existem questões não respondidas e divergências em relação ao tema.
O autismo é um transtorno do desenvolvimento e afeta, principalmente, as capacidades de relacionamento e comunicação do indivíduo, ocorrendo predominantemente em indivíduos do sexo masculino, inicia-se antes dos três anos de idade e é de difícil diagnóstico, uma vez que engloba um grande número de patologias. Deste modo, o diagnóstico só pode ser realizado por um profissional qualificado.
Os sintomas são diversos, sendo que cada um deles pode se apresentar em graus variados, dependendo do comprometimento cognitivo. A interação social é a principal área afetada, podendo a criança ser totalmente indiferente a outras pessoas, nos casos mais graves, como a interação pode ser realizada de modo pouco convencional, nos casos menos comprometidos. Isso acontece porque o autista não consegue reconhecer o estado mental do outro, o contato com o mundo externo varia de fraco a inexistente, sendo o contato visual pouco ou nenhum, não respondendo, muitas vezes, a estímulos auditivos e, por isso, chega a ser erroneamente percebido como surdo.
A comunicação social, tanto verbal quanto não verbal, também é muito afetada, e varia de repetições a ausência de comunicação. Outra área bastante afetada é a da imaginação, que pode ser ausente ou até repetitiva e fora da situação, não entendem expressões abstratas e suas interpretações são literais. A inteligência geralmente é comprometida e os padrões repetitivos são frequentes e podem estar presentes nos gestos, na fala, na manipulação de objetos e na rotina. Quando há linguagem, esta pode ser limitada a repetições de palavras ou frases que a criança escuta ou com o uso incorreto de pronomes e preposições. É comum o interesse por objetos específicos, e perceptível hiperatividade ou extrema inatividade, acessos de raiva também podem ser frequentes, assim como dificuldade em expressar suas necessidades.
Existem algumas síndromes que tem um espectro autista, pela sua semelhança com o quadro autista, porém apresentam algumas diferenças do autismo clássico. São elas:
Transtorno desintegrativo da infância – com desenvolvimento normal até os 24 meses, os portadores desta síndrome passam a apresentar, depois desta idade, perda de habilidades já adquiridas, habilidades estas afetadas no autismo clássico, o que torna a síndrome semelhante ao autismo, sendo que a sociabilidade e a comunicação são pobres desde o nascimento.
Transtornos abrangentes não especificados – são outras síndromes, que apresentam um espectro autista, mas não podem ser encaixadas em nenhuma outra síndrome descrita anteriormente, abrangendo uma grande quantidade de sintomas.
A causa do autismo é muito estudada, porém ainda é desconhecida. Existem três grandes teorias que buscam explicar a síndrome.
A primeira é biológica, e associa o autismo a fatores genéticos que ainda não foram especificados.
Já a segunda é a chamada teoria afetiva, que defende a idéia de que o autismo deriva de uma falha do aprendizado do relacionamento, afetando, assim, o desenvolvimento afetivo e social.
A última teoria que busca explicar a causa do autismo é cognitiva, e defende a idéia de que o autista não desenvolve a capacidade de meta-representação, responsável pela identificação dos estados mentais das pessoas e que facilita a percepção do comportamento dessas. Tendo essa capacidade não desenvolvida, a criança apresenta os padrões de interação social alterados.
O papel da Terapia Assistida por Animais
Segundo Kátia Aiello – Diretora de Comportamento Animal do INATAA, psicóloga e especialista em comportamento animal - a criança autista interage com maior facilidade com um cão do que com as pessoas á sua volta, o cão acaba se tornando um mediador do relacionamento desta criança com o mundo externo, uma vez que a criança sente-se protegida pelo cachorro. Por se tratar de uma criança autista, é comum que ela se apegue a um único cão, com o qual cria um forte vínculo.
A partir deste vínculo, que já é terapêutico, pode-se utilizar a relação da criança com o animal para vários outros fins terapêuticos. O cachorro pode ser utilizado como recompensa quando é desejado que o autista execute determinada tarefa, motivando-o a realizar a tarefa proposta pelo terapeuta. O cão também ajuda no desenvolvimento da linguagem, uma vez que estimula a criança a falar sobre ele e lhe dar comandos. O reconhecimento corporal também é facilitado quando se mostra determinada parte do corpo do cachorro e a criança pode perceber esta em seu próprio corpo também. Além disso, o cachorro tolera as repetições comuns no autismo e é um ótimo companheiro para a criança.
Exemplos destes benefícios trazidos pelos cães ás crianças autistas puderam ser observados em uma instituição em que trabalhamos. Ao ser questionada se havia notado alguma mudança em seu filho após o início das sessões de TAA, a mãe de um paciente autista respondeu que antes o seu filho só brincava com uma criança e, depois que começou as sessões de TAA, notou que seu filho já brincava com cinco crianças. A mãe de outro paciente relatou que seu filho era indiferente ao gato da família, mas após as sessões de TAA ele passou a interagir com o gato.
Não existe uma raça de cachorro ideal para o trabalho com autistas, segundo Kátia Aiello, qualquer cão pode ser utilizado desde que apresente todas as características necessárias para ser um cão terapeuta e seja muito bem dessensibilizado, tolerando a toques, apertos e puxões em todo o corpo. A dessenssibilização é muito importante, uma vez que o autista, por não perceber o outro, costuma ser agressivo no toque, portanto o cachorro deve ser preparado para lidar com isso.
Laís Maria Milani é Estudante 5º. ano Psicologia e Voluntária do INATAA
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